Circulação Internacional – Entrevista ao jornal O Tempo

No dia 19 de junho foi publicada a matéria “Eles fazem de tudo para colocar o pé na estrada” de Lucas Buzatti no jornal O Tempo com circulação em Minas Gerais. O Gabriel Murilo um dos integrantes da Embaixada Cultural foi um dos entrevistados para a matéria, que ficou bem legal. Compartilhamos aqui na íntegra as respostas dele que achamos de grande valia para todos que querem pensar as relações internacionais na música e conhecer um pouco mais da Embaixada Cultural.

Micro-festival Liquidificador #1 © Flávio Charchar-18
BRASIL / MINAS GERAIS / BELO HORIZONTE / A AUTÊNTICA / Micro-festival Liquidificador #1 © Flávio Charchar

LB A Embaixada Cultural tem ajudado músicos/bandas a circularem no exterior, como no caso recente da 12duoito. Conte mais sobre o projeto. Como ele tem feito esse auxílio? Quais bandas já viajaram com esse apoio?

GM Um dos compromissos que a Embaixada Cultural toma para sí é compartilhar todo o conhecimento e networking adquirido nas viagens e articulações que seus integrantes fazem e têm feito desde 2012. Com isso buscamos sempre auxiliar bandas que queiram realizar projetos no exterior e até mesmo desenvolvemos o projeto junto com a banda. Este o foi o caso da 12duoito. Em setembro do ano passado estive em Benin como convidado de uma feira de música africana e curador. Neste momento começamos a construir a ida do grupo ao festival Tamani, que é um festival de promoção da paz e intercâmbio musical em Mali. A 12duoito é uma banda que representa não só a cultura de periferia de BH, mas também a cultura afrodescendente da cidade e, para eles, a ida à África seria um encontro transformador com raízes de ancestralidades. Daí juntamos o grupo e a equipe de produção deste projeto e submetemos à proposta ao edital de passagens da Secretaria de Cultura, o Musica Minas.

A partir disso várias coisas aconteceram ameaçando o projeto e isso é algo constante quando se quer fazer uma conexão inovadora e com finalidade social e cultural sem apoios de mercado e do governo. O recurso que ganhamos foi cortado cerca de 30% pelo Governo, o que inviabilizava a ida do grupo. Além disso ocorreu um atentado no Mali, o que ameaçava a segurança de um grupo estrangeiro.

Conseguimos por algum motivo maior mudar o projeto para Moçambique e ampliamos as atividades de intercâmbio, o que foi muito bom no final. O grupo organizou um evento para juntar o restante do recurso para a viagem também. O intercâmbio com Moçambique é muito potente para a transformação do artista brasileiro que estuda a cultura afrodescendente. E foi o que aconteceu, todos voltaram diferentes, mais ricos musicalmente, e estimulados a dar continuidade à relação com o país, realizando outros projetos, auxiliando outros artistas e fazendo mais música. Esta é a realização que queremos enquanto Embaixada Cultural.

Outros casos que podemos citar mais recentes foram a turnê na China do grupo Dibigode que envolvia também a participação em uma feira de música em abril deste ano; em setembro do ano passado levamos a Cabruêra, banda da Paraíba, para shows na África do Sul e Moçambique; recentemente construímos a participação da Dona Jandira com show na feira Exibi Music em Portugal. Já trabalhamos também com o Projeto Saravá em turnê na Índia, com o Gustavito na França e a Confeitaria em uma residência na Patagônia.
Os projetos são sempre construídos em conjunto com o grupo que investe também, seja com recurso ou com trabalho de produção. A pesar de tentarmos sempre contar com edital de passagens, no final das contas a maior parte do recurso vem sempre do grupo e da Embaixada Cultural, em forma de trabalho ou investimento financeiro por acreditar no projeto.

LB Com o Macaco Bong e/ou em outras bandas você teve experiências no exterior? Como foram?

GM Com o Macaco viajei por todas as regiões do Brasil durante a turnê do “This is Rolê”, mas a minha primeira experiência internacional como músico (não como produtor) foi com a Confeitaria. Fizemos uma residência na Patagônia, sul da Argentina e gravamos um disco chamado Enero. Depois disso fizemos um show em Barcelona e estamos armando uma turnê na Europa para 2017.
LB O que acha do programa Música Minas? Pensa que o artista ficou refém das leis de incentivo para fazer turnês no exterior?

GM O Programa Música Minas foi criado pela sociedade civil organizada em 2009 e realizado com autonomia, em parceria com a Secretaria de Estado de Cultura até o ano passado. É um programa pioneiro na sua concepção e forma de gestão e constitui um pilar muito importante para a cadeia produtiva da musica no que tange a circulação. Eu fui um dos coordenadores do programa em 2013 e 2014 e contribui para o desenvolvimento e aprimoramento de algumas ações, dando continuidade ao trabalho dos que coordenaram antes de mim e trabalhando em parceria com os demais coordenadores. Entretanto, para a surpresa de todos que trabalhavam e acompanhavam o programa, com a mudança de governo em 2015 tivemos um corte no diálogo, na relação e no orçamento por parte da Secretaria de Cultura, que tomou para si exclusivamente a gestão do programa. A partir disso temos acompanhando diversos retrocesso no programa e a desconstrução de várias conquistas e acúmulos coletivos da classe musical organizada. Atualmente tem se tornado difícil acessar o programa devido a erros de gestão, a um mal planejamento do edital, à burocratizações extremas e também a um processo de seleção duvidoso, com curadores sem respaldo e reconhecimento artístico. Infelizmente se vê hoje uma condução retrógrada deste recurso e deste Programa construído pela sociedade civil com tanto esforço. Este ano o Programa teve um corte de 405 mil reais, que estavam previstos no PPAG, e nada foi anunciado sobre o destino deste recurso.

LB Como analisa a importância de uma banda levar sua música para outros países do mundo?

GM A importância é enorme em várias perspectivas e ganhos diversos podem ser conquistados. Inicialmente o ganho artístico é enorme se pensarmos sobre o ponto de vista do intercâmbio. Os artistas sempre voltam transformados musicalmente e socialmente das viagens, com um potencial maior de criação e de provocação social, que é um papel social importante do artista. Para o Brasil é também importante que mais personalidades de sua cultura se espalhem pelo mundo e ocupem lugar de escuta. No geral preponderantemente a cultura musical do Rio de Janeiro e da Bahia representam o país, sendo que somos muito mais diversos do que este recorte. Pra cena musical do estado é também grandioso que seus artistas desenvolvam suas carreiras e regiões de distribuição. Além de todos estes motivos que não necessariamente são monetizados, temos também, enquanto um dos fatores, o crescimento da carreira sob o ponto de vista mercadológico. Um grupo que viaja pode não só galgar mercados em outros países e gerar receitas como também pode ampliar seu potencia de venda no Brasil.

A Embaixada Cultural acredita muito em toda essa potencialidade de encontros internacionais e no desenvolvimento geral da cadeia produtiva musical do estado em âmbito internacional. Por este motivo iremos realizar de 14 a 17 de setembro deste ano o nosso primeiro encontro internacional de música, o “Música Mundo” que é uma espécie de feira mais ampliada, como uma plataforma de relacionamentos internacionais para o músico mineiro. Traremos articuladores e profissionais da música de várias partes do mundo para construírem projetos diversos com a cena musical local.
LB Quais outras alternativas você vê com bons olhos, no sentido de viabilizar financeiramente turnês internacionais? (crowdfunding, patrocínio direto, parcerias…)
GM A principal delas acaba sendo o investimento do próprio grupo. É importante que quem queira se internacionalizar saiba que isto necessita de um investimento. Geralmente o artista vai a um país tocar para um público que nunca o escutou. Isto não tem potencial mercadológico. Mas o potencial de intercâmbio é muito alto, e acaba sendo um investimento para conquistar novos públicos o que pode converter em retornos mais rentáveis ao país. Geralmente, quando não e trata de um artista presente em grandes mídias que chegam no exterior, é necessário um período de cerca de 4 anos investindo em mercados estrangeiros para se ter um resultado de fato.
É preciso pensar em nosso contexto mineiro também. Para grupos daqui é mais difícil contar com patrocínio direto de marcas grandes como a Skol ou a Red Bull que tem bancado artistas em algumas ações. Por isso é natural que ainda necessitemos muito das políticas públicas que tem a função de incentivar algo que é importante para a cultura e para a sociedade mas que não tem a atenção do mercado de modo suficiente à subsidiá-la.

O crowdfunding é uma ferramenta potente. Mas eu percebo que ela serve para algumas ocasiões específicas e necessita também de um investimento qualificado para fazer virar.

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